Titãs iniciam turnê que comemora 40 anos de 'Cabeça Dinossauro' neste fim de semana em SP
Tony Bellotto, Branco Mello e Sérgio Britto falam sobre nova turnês do Titãs Pedro Dimitrow "Antes a gente só tocava no Rio, São Paulo...", conta Branco Me...
Tony Bellotto, Branco Mello e Sérgio Britto falam sobre nova turnês do Titãs Pedro Dimitrow "Antes a gente só tocava no Rio, São Paulo...", conta Branco Mello, vocalista e baixista dos Titãs. "E São Paulo, São Paulo, São Paulo...", acrescenta o tecladista e também vocalista Sérgio Britto. O guitarrista Tony Bellotto entra na brincadeira: "Santo André, São Bernardo... Santos". O trio faz graça com a agenda dos Titãs, restrita a algumas poucas cidades, em 1986. Quatro anos depois do lançamento do primeiro álbum da banda, quando o grupo paulistano já tinha um segundo disco lançado, alguns sucessos radiofônicos, como "Sonífera Ilha", mas pouca expressão nacional como banda de rock. "A gente foi de trem para o primeiro show no Rio de Janeiro", conta Branco Mello, em entrevista à TV Globo e ao g1 no estúdio onde a banda ensaia a próxima turnê, na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo. "Foi no Circo Voador." Sérgio completa rindo: "A gente foi abrir para o Celso Blues Boy. Tomamos uma vaia homérica." Os primeiros anos dos Titãs não foram de ascensão meteórica, mas de um grupo com tantos membros, referências e talentos que ainda buscava sua marca. Foi o que aconteceu com a chegada do terceiro álbum de estúdio, "Cabeça Dinossauro", produzido por Liminha, que se tornou um marco do rock brasileiro e um sucesso, em parte, inesperado pelos membros dos Titãs. 'Vão se f...' Sobrou para quase todo mundo. Críticas à igreja, à polícia, ao Estado brasileiro, à violência, à organização social e seu modo de produção e até para animais fofinhos. "Eu acho que ali a gente encontrou a nossa linguagem. Os primeiros discos vão para um lado, para o outro. No 'Cabeça', a gente conseguiu ser mais conciso e achar uma estética nossa, vocais gritados, letras muito precisas, diretas, claras", conta Bellotto. Sérgio Britto lembra de certa dificuldade, nos dois primeiros álbuns, para encontrar um caminho de críticas mais ácidas, diretas e som mais pesado. "No palco, a gente era uma banda barulhenta e estranha e, nos discos, a gente ficava muito doce, e as guitarras sumiam, as coisas ficavam muito domesticadas." O álbum vendeu cerca 300 mil cópias à época, feito inédito para os Titãs até então, e resultou em shows que se espalharam pelo país, pavimentando um caminho de sucesso que fez a banda se tornar um nome incontornável na história do rock nacional. Agora, Mello, Britto e Bellotto se preparam para iniciar uma nova turnê de comemoração das quatro décadas do lançamento de Cabeça Dinossauro. O show será neste sábado, (28), em São Paulo. Ao lado deles, estarão Beto Lee e Alexandre de Orio, nas guitarras, e Mario Fabre, na bateria. Confira, abaixo, a íntegra da conversa com os Titãs. g1: Como será o novo show? Tony Bellotto: A ideia é tocar o disco na íntegra, na ordem dos antigos lado A e lado B. Depois, uma segunda parte porque só o repertório do Cabeça faria um show muito curto. Aí tem uma segunda parte com outras músicas do nosso repertório que têm mais a ver com o Cabeça. Rocks mais pesados. A gente entrou numa de fazer um show de rock mais pesado que é uma maneira de comemorar os 40 anos do disco fazendo jus a tudo que o disco significa. E sem convidados. Sérgio Britto: Tem um projeto muito bacana do Otavio Juliano que, inclusive, fez com a gente a Ópera Rock e a turnê do Encontro que tiveram uma coisa visual muito forte. Para esse, a gente está prometendo uma coisa também muito bacana. A palavra é meio gasta, mas, para que seja um espetáculo. Para a gente executar as músicas e ter um aparato visual que dê apoio a isso. g1: Além de "Cabeça Dinossauro" ter sido uma virada musical para a banda, a turnê do disco também foi uma virada, certo? Sérgo: Lá atrás foi, sim. A gente não tinha dinheiro para nada antes do Cabeça. A gente tocava do jeito que dava, mal tinha instrumentos, demorou para ter dinheiro para investir num cenário. Então no Cabeça a gente fez nosso primeiro cenário legal. Branco: É, foi o primeiro grande show que a gente fez. g1: Ou seja, a banda mudou totalmente de patamar. Tony: É, eu acho que ali a gente encontrou a nossa linguagem, a gente conseguiu sintetizar... é que a banda foi muito variada, muitos integrantes com diferentes referências e os primeiros discos eles são meio... uma faixa vai para um lado, outra vai para outro... no Cabeça a gente conseguiu ser mais conciso e achar uma estética nossa, aqueles vocais gritados, as letras muito precisas, diretas, claras. g1: Por que vocês acham que isso aconteceu naquele momento? Branco: Foram quatro anos. Buscando essa linguagem. De 1982 a 1986. Dois discos... Tony: É, a gente foi ganhando experiência de estúdio... Sérgio Britto, dos Titãs Pedro Dimitrow Sérgio: A gente sempre quis soar como a gente soa no Cabeça. Mais pesado e mais coeso. Mas a gente nunca conseguiu realizar isso. No palco, a gente era uma banda bem barulhenta e estranha e no disco a gente ficava muito doce, e as guitarras sumiam, as coisas ficavam muito domesticadas. A gente no palco era mais louco, mais caótico, e a gente não via isso impresso no disco. Depois a gente foi ficando com essa vontade de fazer coisas assim. Por exemplo, "Bichos Escrotos" é uma música que a gente fez antes de gravar o primeiro disco. Então, a gente até pensou em gravá-la no primeiro disco. Não gravamos porque ela foi censurada. Proibida a gravação, não era nem a execução. Então isso era uma vontade que a gente tinha. No Televisão (1985), já tinha aquela música "Autonomia" e, principalmente, "Massacre" que já são músicas que apontam para isso. Então era uma vontade que a gente já tinha e que foi crescendo e a gente viu que a gente funcionava bem assim. E aí tem as coisas extra musicais que aconteceram também que deram um empurrão para esse lado, mas era um projeto estético nosso também. Tony: É, e tem um momento político também, aquela coisa do fim da ditadura, ele veio muito a calhar com uma ansiedade, uma expectativa da nossa geração que tinha crescido na ditadura militar, e ele expressa um pouco essa vontade de liberdade, de poder falar qualquer coisa, de poder gritar, então acho que foi uma coincidência de vários fatores que fez o disco tão especial. g1: É um daqueles momentos em que tudo converge para que as coisas aconteçam. Branco: É, e a gente aprendeu a gravar. Porque o primeiro disco era uma experiência. A gente não sabia gravar. Em 1986, já foi uma produção legal. Sérgio: No primeiro disco, a gente não podia entrar na técnica. O produtor não deixava a gente entrar na técnica. Tem só um solo gravado com amplificador que, além do mais, era um amplificador que era um cubo, que se usava mais para teclado do que outras coisas. O teclado que eu gravei o disco inteiro era um teclado assim... era um brinquedo. Era um Casiotone T70. Hoje em dia, essas coisas ficam curiosas, né... A gente não tinha grana, é isso que eu estou falando, então a gente fez do jeito que deu e isso obviamente não soou como a gente gostaria. g1: Vocês se lembram da sensação de ouvir o disco pronto pela primeira vez? Tony: Sim, a gente ficou muito satisfeito porque era o que a gente queria, como o Britto estava falando. E lá a gente teve todas as condições. O Nas Nuvens era o estúdio lá do Liminha, do André Midani, do Gilberto Gil, que eu acho que eram sócios na época. A gravadora apoiou muito a gente, então, a gente teve tempo para ficar ali experimentando, tocando. Todos morávamos em São Paulo e estávamos hospedados no Rio só pra gravar o disco. Acho que teve uma concentração. Sérgio: E a gente entrou em estúdio mais ou menos prontos porque é um repertório que a gente ensaiou muito e fez uma demo bem próxima daquilo que acabou sendo o disco. Ele chegou muito mastigado e redondo. É aquela coisa de banda que está no começo e passou anos trabalhando e chega o primeiro, segundo disco, às vezes são muito bons como consequência desse tempo de depuração. Então acho que esse repertório todo já tinha sendo bem trabalhado. g1: Alguém suspeitava do sucesso que ele teria também? Sérgio: Sucesso, não... Tony: Talvez o Branco. Tem uma aposta que a gente fez. A gente sentiu que o disco estava muito bom, era o que a gente queria. Mas eu achava que ele não daria certo comercialmente, mas o Branco é meio profeta... Branco: Eu achei que a loucura poderia trazer... uma coisa! Tony: Ele falou: 'Vai dar certo, a gente vai vender um disco de ouro'. Na época eram 100 mil discos, coisa que a gente nunca tinha vendido. Aí a gente fez uma aposta e ainda bem que eu perdi. Dei uma garrafa de uísque para ele. Tony Bellotto, dos Titãs Pedro Dimitrow Sérgio: A gente não sabia que ia ser um sucesso comercial tão grande, que ia ser tão importante para a nossa carreira. Mas a gente via. A gravadora se entusiasmou muito com o disco também. Eles compraram, gostaram, acho que até muito por causa da gestão do André Midani, que era um cara que era um pouco visionário também. Ele sempre dizia que achava que no rock nacional faltava subir esse degrau. Isso de ter uma banda mais suja, com coisas mais gritadas, com uma sonoridade mais ácida. g1: Vocês têm alguma memória específica daquela época? Tony: Era muito divertido porque ali no Rio, no Nas Nuvens, era um ponto de encontro. Às vezes, a gente estava gravando, chegavam músicos de outras bandas. Lembro uma vez o Britto estava gravando uma música, apareceu o Evandro. Branco: Era 'Polícia'. Tony: Evandro Mesquita, da Blitz. Os Paralamas passavam. O Liminha era um cara já muito conhecido. Então, as lembranças são muito boas, a gente passava um dia inteiro no estúdio e depois ia para o hotel, acordava e voltava para o estúdio. As lembranças são muito boas. Sérgio: Sim. Fluiu muito. A gravação também não foi complicada. Algumas músicas deram mais trabalho porque o Liminha sugeria, e a gente aceitava mudar um pouco. Em "O Quê", por exemplo, a gente usou elementos de música eletrônica que a gente nunca tinha usado. Na nossa demo, era uma coisa bem diferente. Legal também, mas bem diferente. Então a gente programou aquele beat, ficamos fazendo uma jam que durou dois, três dias, por isso que ela é tão cheia de coisa. E a gente fez curtindo muito, foi uma coisa muito prazerosa mesmo. g1: Vocês ouviam o quê na época? Sérgio: A gente gostava muito do The Clash, acho que o Clash tinha também flertado com essa coisa de hip hop, reggae, funk e tudo mais. Talvez fosse uma referência nossa também. Tony: Mas as referências eram muito variadas, eram muitas referências. A gente gostava muito de reggae também. Sérgio: Essa coisa da canção está na base do que a gente faz. Qualquer que seja o estilo. É essa coisa da palavra com a melodia, a música, esse encaixe. Eu acho que a nossa geração tinha essa coisa de cantar em português, é uma coisa que a gente sempre teve apreço. Não é aquela coisa de algumas bandas de "ah, inglês soa muito melhor", sabe? A gente nunca teve isso. Branco: É, e com o Cabeça a gente conheceu o Brasil. Viajamos, começou a história de turnê nacional. Antes a gente tocava no Rio, em São Paulo... Tony: E olhe lá, né. Sérgio: São Paulo, São Paulo, São Paulo, Rio... Tony: Santo André, São Bernardo... Santos! Branco: Primeiro show no Rio, a gente foi de trem, né. Tinha um trem. Tony: A gravadora não quis pagar passagem de avião. Branco: Foi no Circo Voador, o show. A gente foi abrir para o Celso Blues Boy. Branco Mello, dos Titãs Pedro Dimitrow Sérgio: Celso Blues Boy e a gente tomou uma vaia homérica. g1: O Cabeça Dinossauro já esteve em vários daqueles rankings de "melhores álbuns" feitos por jornalistas, foi reconhecido pela crítica, teve sucesso comercial. Vocês conseguem se despir de modéstia e olhar para o álbum como um dos grandes discos da música brasileira? Sérgio: É... tem que ouvir os outros um pouco, né? Eu acho que quando é para o bem também. Com certeza ele faz parte e eu até entendo o porquê. Porque ele é um disco que tem uma peculiaridade grande na trajetória, mesmo dentro do pop. Acho que ele é um disco importante por ter trazido tudo isso e fazer sucesso. A gente ganhou prêmio... foi lá e recebeu Troféu Imprensa, no Silvio Santos, cantando Bichos Escrotos. AA UU entrou para trilha de novela. Isso é inegável. Branco: É, quebramos a barreira das rádios, televisão... Tony: A gente tem esse reconhecimento e estamos fazendo uma comemoração em cima do que ele significa mesmo. A gente fez questão de comemorar essa data. Quarenta anos parece tanto tempo e ele continua sendo um disco atual. Isso é muito legal. g1: Voltando ao novo show. Em nome do conceito do álbum, algumas famosas vão ficar de fora? Tony: A gente sempre gostou de trabalhar assim, com conceito. O Cabeça é um disco conceitual. É legal chegar lá e mostrar que o rock tem essa potência. Mesmo nós estando mais velhos, já chegar lá e fazer um show de rock 'n' roll pra homeneagear esse disco. Nosso repertório tem muita coisa. Inclusive hits que são mais pesados, como "Flores", "Diversão", "Lugar Nenhum"... a gente tem repertório pra montar um show com essa bagagem. Sérgio: Para dar um descanso para essas baladas, reggaes que, aliás, são as mais populares do nosso repertório. Como o Tony falou, a gente tem outros hits, graças a Deus. Fazendo o setlist, a gente tem hits também pesados para suprir e fazer um show. Tony: Senão, você fica aí sempre fazendo os mesmos sucessos. Sérgio: Aqueles mesmos sucessos. Então, para a gente também, é bom dar um descansinho. SERVIÇO TITÃS - CABEÇA DINOSSAURO 40 ANOS 📅Quando? Sábado, 28 de março, às 21h. 📍Onde? Espaço Unimed | rua Tagipuru, 795, Barra Funda, Zona Oeste 💲Quanto? A partir de 127,50 (meia) ➡️ Mais informações